FALAR, FALAR, FALAR

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Desde Ad√£o somos chamados a ‚Äúdar nome √†s coisas‚ÄĚ, e distinguir-se dos animais √© tamb√©m tomar posse dessa capacidade; se com as coisas eles s√≥ podem ‚Äútopar‚ÄĚ, n√≥s podemos apreend√™-las e sustent√°-las dentro de n√≥s. Deposit√°-las no fundo da mem√≥ria, sobre elas operar; com elas projetar, criar e interpretar a vida. Tudo isso porque n√£o precisamos de Martin Heidegger junto conosco para falar de suas ideias: para isso existem as palavras, que oferecem ilus√Ķes de presen√ßa intelig√≠veis. O autor de Ser e Tempo n√£o precisa estar comigo para que eu fale dele, ou para que das suas proposi√ß√Ķes eu retire minhas pr√≥prias conclus√Ķes.

As palavras, mesmo quando empregadas com maestria, n√£o se confundem com as realidades que respectivamente apontam. Dizer ‚Äúcasa‚ÄĚ n√£o √© coloc√°-la fisicamente √† frente do interlocutor. S√£o signos: imagens poss√≠veis a partir dos fen√īmenos percebidos pelo homem. O processo de amadurecimento pessoal passa necessariamente por esta cont√≠nua supera√ß√£o da pr√≥pria barb√°rie: cada um de n√≥s precisa aprender a dizer e adquirir, ao longo da vida, mais e mais formas de expressar as realidades vistas, sentidas, captadas intelectualmente, etc. Os grandes escritores, por exemplo, s√£o aqueles que se esmeram em superar alguns dos limites da linguagem, conquistando ‚Äúnovos continentes‚ÄĚ √† esp√©cie, que passa a fazer refer√™ncias √†s realidades que sa√≠ram do obscurantismo por obra dos ‚Äúprofissionais da palavra‚ÄĚ.

Levando tudo isso conta, o que dizer quando a linguagem ‚Äď do cotidiano, entre os amigos, nas postagens em redes sociais ‚Äď tamb√©m est√° imbu√≠da, al√©m dos limites estruturais que tem, de pedantismo, falsidade, vaidade, cumplicidade pueril? O que pode ser comunicado nesses casos? O que √© poss√≠vel dizer? Se j√° s√£o dram√°ticos os processos de captar, dar nome e expressar qualquer objeto (por mais simples que este seja), o que fazer quando s√£o acrescentados elementos de deturpa√ß√£o, corrup√ß√£o e aviltamento como os que testemunhamos por a√≠?

√Č impressionante o que se faz por uma ‚Äúcurtida‚ÄĚ no facebook. Fala-se de tudo, de todos. Explora-se menino morto na praia, exagera-se nas tintas contra o partido pol√≠tico, enaltece-se as pr√≥prias (e pretensas) virtudes intelectuais, art√≠sticas, etc. Se dizer sem mentir ou falsear j√° √© dif√≠cil, comunicar desde a superf√≠cie ou desde o n√≥ de v√≠boras torna a mensagem quase imposs√≠vel. Falar, falar, falar ‚Äď ainda que citando grandes poetas, educadores e fil√≥sofos ‚Äď tem a sina de apequenar as realidades: quanto mais graves ela s√£o, menores elas ficam ap√≥s tanta explora√ß√£o. √Č como escreveu Ortega y Gasset: nada que chega √† superf√≠cie pode manter a profundidade.

Se voc√™ fala muito de uma coisa, √© prov√°vel que voc√™ n√£o sinta mais o verdadeiro peso dela. √Č como o sujeito que repete tantas vezes o mesmo pecado que, passado um tempo, n√£o se sente mais um errante por aquilo.

O esforço por dizer as profundas e imortais verdades da vida é quase doloroso. Por vezes, vergonhoso. Porque ninguém que tenha experimentado radicalmente algum mistério terá a ansiedade de contá-lo aos quatro ventos, espalhando leis metafísicas como quem repassa fofoca no recreio.

Eu sou professor e fico quase sempre sobre essa tens√£o ‚Äď t√≠pica do aquariano, inclusive: quero descer √†s profundezas do meu ser e de l√° emergir com realidades que sei belas, boas e verdadeiras. Mas ao subir sei que me perco; em parte deixo suas subst√Ęncias para tr√°s. O pouco que consigo sustentar at√© a superf√≠cie √© o que entrego em minhas aulas e livros. E meu temor √© que tudo seja recebido com prosa√≠smo. Com a gravidade de uma curtida.

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